sábado, 9 de março de 2013

A Reinvenção do Preconceito


Uma corrida que mudou uma vida e, também, a de milhares de mulheres no esporte!



Abstract: What is the relationship between the story of an athlete from the small American city of Syracuse with the cancellation of the Gaza Marathon, or with the Olympic Games being played by men and women separately and conducting races and competitions with separate starts for sex? An invitation to reflection.

                Qual a relação existente entre a história de uma atleta da pequena cidade norte-americana de Syracuse com: (1) o cancelamento da Maratona da Faixa de Gaza, (2) os Jogos Olímpicos sendo disputados separadamente por homens e mulheres e, (3) as largadas realizadas em horários diferentes para atletas da elite feminina e masculina em corridas de rua? Um convite à reflexão, ainda em clima do “Dia Internacional da Mulher”.
                Talvez, a imagem mais emblemática na luta pela igualdade de direitos com os homens, em se tratando de corrida, seja a memorável fotografia da atleta Kathrine Switzer. Ela desafiou as regras e tornou-se a primeira mulher a correr uma maratona, até então, exclusivamente para homens.
 

Imagem 1. Kathrine Switzer durante a Maratona de Boston, em 1967.


                O fato ocorreu em 1967 durante a Maratona de Boston. Até então, a prova foi por 70 anos, realizada exclusivamente por atletas do sexo masculino. Em sua longa história, a Maratona de Boston é considerada como a mais famosa e tradicional corrida de longa distância do mundo. Ao longo do tempo, a prova foi palco de eventos marcantes. Um deles foi o registro da primeira participação oficial conhecida de uma mulher.
                Kathrine revelou que se inscreveu como um atleta do sexo masculino, utilizando apenas as suas iniciais, KV Switzer. Ela recebeu o número oficial 261. A atleta entrou para a história quando, um dos diretores da corrida, no meio da prova, saltou por detrás dela para retirar-lhe o número de peito e impedi-la de continuar. Veja o vídeo ao final da matéria.

– Me dê esses números e desapareça de minha corrida! Foi o que, segundo ela, ele disse. 


Imagem 2. Tentativa de um dos Diretores da Maratona de Boston para retirar Kathrine Switzer da prova.

                Seu namorado e outros corredores, que participavam do evento, assim que viram a cena, impediram a ação do diretor, empurrando-o para o lado. Em seguida, eles a "escoltaram" por algum tempo.
                Após o episódio, durante a corrida, tudo mais ficou em silêncio, até a linha de chegada.  A partir daquele momento, nascia outro grande desafio na vida de Kathrine – Agora, ela teria que terminar a corrida de qualquer jeito, uma vez que, se falhasse ninguém mais acreditaria que uma mulher poderia  fazê-lo. Nascia uma missão. Kathrine finalizou a prova com a marca de 4h20minutos. 


Imagem 3. 261 - Número de peito utilizado por Kathrine Switzer


                Entretanto, cinco anos depois desse episódio, em 1972 foi que as mulheres receberam a permissão para participar oficialmente de uma maratona. Switzer tornou-se uma ativista pelos direitos das mulheres corredoras e sua participação foi fundamental para a inclusão das mulheres na maratona olímpica.
                Ao longo de sua carreira, Switzer ainda ganhou a Maratona de Nova York em 1974 com o tempo de 3h07min (59º colocada no geral). Entretanto, seu recorde pessoal na distancia é de 2h51min, alcançado também na Maratona de Boston no ano de 1975.
                Esse episódio, sem dúvida alguma, é um dos momentos inesquecíveis da história das maratonas. De lá para cá, muitas coisas mudaram, especialmente quando se trata do ocidente. As mulheres, em muitos segmentos da sociedade, alcançaram direitos de igualdade aos homens e, em muitos deles, elas conseguem superá-los.
                No pequeno mundo da corrida, com a luta pela igualdade de direitos, o movimento da mulher também progrediu bastante. Atualmente, elas dão um colorido todo especial às provas realizadas por aí. Progrediu tanto, que há competições sendo realizadas exclusivamente para elas, o que não deixa de ser também uma segregação.
                Entretanto, quando se trata do desempenho em atividades físicas que exijam força e resistência, a história entre homens e mulheres ainda segue por caminhos diferentes, especialmente quando se trata de atletas de elite. É que nesse quesito, os homens conseguem se sair melhor do que as mulheres. Aqui considero os atletas de elite porque quando se trata dos amadores ou da população em geral, o desempenho tende a ser parecido.
                É fácil ver atletas amadores sentindo-se realizados quando chegam juntos ou bem próximos das atletas de elite da categoria feminina de alto desempenho. O que está sendo destacado nesse momento pode parecer absurdo para muitos, mas é isso o que os números mostram. Obviamente, há nessa questão um importante componente físico e genético, específico de cada sexo, o que diferencia as duas categorias.
                Senão, o que justificaria, em muitas provas de corrida de rua realizadas por aí, haver largadas separadas por 15 minutos ou até de meia hora para as duas categorias? Sempre com as mulheres largando na frente? Talvez, seja mais fácil de entender, os motivos que levam os atletas “Portadores de Necessidades Especiais” PNE a largarem na frente dos demais corredores.
                Todavia, quando se trata de homem e mulher, não haveria aí também uma questão de segregação? Qual outra razão haveria para largadas em horários distintos? No modo prático de ver as coisas, o que de fato ocorre é que acaba sendo dois eventos diferentes, com a diferença de que são realizados no mesmo dia. É isso o que ocorre.
                É diferente da largada por ondas de ritmo, onde os atletas participantes de uma mesma prova largam em baias separadas por ritmo previsto de desempenho na corrida. Aqui o principal objetivo está em facilitar o fluxo da largada, de forma que os atletas mais lentos não dificultem a ultrapassagem dos atletas mais rápidos.
                Trata-se de uma questão de administração e de ordenamento do fluxo da competição. Portanto, um único evento. É que neste caso, a buzina ou o “tiro de largada”, é dado uma única vez. Isso é diferente do que foi apresentado no parágrafo anterior, onde se falava de duas largadas.
                Durante as Olimpíadas, homens e mulheres participam dos mesmos eventos separadamente e em dias alternados. Voltando ao mundo da corrida, por exemplo, há uma maratona feminina e outra masculina. As atividades seguem nessa ordem para que haja certa calibragem no desempenho dos atletas. Por isso, há ainda outro evento, chamado de Paralimpíada. O que se pretende é que haja igualdade de condições durante a competição.
 

Imagem 4. Maratona Olímpica Feminina (Londres - 2012)

                Seguindo esse raciocínio, percebe-se que no mundo das atividades esportivas, especialmente durante a corrida de rua, homens e mulheres são tratados, na grande maioria das vezes, de forma muito distintas. O fato é que isso não incomoda. Todos estão satisfeitos com o estado das coisas.
                A partir desse raciocínio, se abre uma porta para ampliar ainda mais a discussão sobre essa questão da igualdade de direitos, iniciada e ilustrada com a bela e inspiradora história da atleta norte-americana Kathrine Switzer.
                Recentemente foi anunciado pela imprensa mundial sobre o cancelamento da terceira edição da Maratona da Faixa de Gaza, sob a alegação de que as autoridades de Gaza proibiram a participação de mulheres na prova, o que soa como absurdo diante dos avanços que o movimento feminista alcançou nos últimos anos neste lado do planeta.
                Esse é um evento organizado pela UNRW, órgão da ONU que trabalha com refugiados, como forma de angariar fundos. Nas duas primeiras edições, atletas de elite e amadores de todo o mundo participaram da competição, que percorreu 42 km da Faixa de Gaza, região conhecida pelos conflitos armados entre palestinos e israelitas. Na ocasião, atletas estrangeiras competiram com calças compridas, assim como as palestinas, que correram com calças e a cabeça coberta, em respeito aos costumes locais.


Imagem 5. Maratona da Faixa de Gaza

                No ano passado, a prova recebeu mais de duas mil crianças e 500 adultos, entre eles, atletas olímpicos palestinos. Segundo a UNRW, neste ano a prova contava com 807 inscritos, sendo 385 mulheres, das quais, 266 eram palestinas.
                Segundo o Hamas, partido conservador do movimento islâmico, que controla a região, a corrida não seria proibida, desde que as corredoras não participassem em meio aos homens, pois isso feriria os costumes locais.
                Não é objetivo da discussão entrar no mérito religioso ou dos costumes locais, pois pouco se sabe a respeito. O fato é que a maratona acabou mesmo foi sendo cancelada. O que se percebe é que, na verdade, eles simplesmente não gostariam que os homens corressem misturados às mulheres.
                A verdade de toda a história é que a atleta norte americana Kathrine Switzer deu um grande passo em prol do movimento feminista para a conquista da isonomia de direitos na prática do esporte. Entretanto, ainda há muito espaço para ser conquistado, por aqui e, também, no lado de lá, isto é nas duas partes do planeta.
                Não deixem de conferir algumas imagens inéditas da Maratona de Boston em 1967, bem como o relato na voz da própria Kathrine Switzer, sobre esse episódio que a tornou célebre:


 Vídeo 1. Relato pessoal de Katrhrine Switzer sobre o famoso episósio durante a Maratona de Boston em 1967.


Um grande abraço a todos e boas corridas!





2 comentários:

  1. Com todos os problemas que enfrentamos aqui no Brasil, Nilo, ainda podemos dar graças a Deus pela nossa liberdade de expressão.

    Há muito o que ser conquistado ainda, mas quando saímos do Brasil e temos contato com outras culturas, algumas delas nunca sequer ouviram a palavra "democracia".

    Para nós parece um absurdo, mas por lá existe um grande conformismo com a situação, tanto por parte dos homens quanto das mulheres.

    Estou fazendo um trabalho na África e é deprimente ver a situação das mulheres de lá, diante de uma cultura machista e alienada... e a gente não pode fazer muita coisa pra mudar, porque elas mesmas se conformaram com a situação.

    Parabéns pela homenagem e pela aula de história.

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  2. Sílvio, com toda razão! Damos Graças a Deus pela nossa liberdade de expressão!
    É incrível o exemplo de dedicação e zelo para com as obras de Deus demonstrada através do trabalho que você e outros de seus companheiros vem realizando junto às comunidades na África.
    Acima de tudo, essa experiência é muito enriquecedora e, nela, percebo que há um pouco de tudo isso que foi abordado.
    Infelizmente, demonstrações de intolerância e preconceito, de todas as formas, aparecem a todo o momento, inclusive em nosso meio.
    Parabéns pelo belo trabalho!
    Um grande abraço e boas corridas para você!
    Nilo

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